A ESPERA conto autobiográfico registrado por Ronaldo Soares de Oliveira Eles estavam a menos de seis metros de distância um do outro, num terminal de ônibus. Ambos de capuz, tremendo de frio; ela mal conseguiu vislumbrar o rosto que lhe solicitou as horas. O ônibus dela já ia dar partida quando ele suplicou para o motorista que lhe desse apenas dez segundos, tempo necessário para debruçar-se sobre a roleta e jogar um bilhetinho para ela.
Agradeceu ao motorista e acenou para janelinha onde ela estava. Cabeça descoberta, cabelos longos despreocupadamente despenteados, ela acenou alegremente; mostrando um par de olhos verdes seguidos de um sorriso alvo e tímido.
Com essa perda de tempo ele perdeu o ônibus, mas não se arrependeu. O seu bilhetinho dizia, em letras apressadas: "Menina encapuzada de alegre sorriso - ele se encantara com o sorriso que vira - ficaria feliz em corresponder-me contigo. Só tenho e-mail. Nada de importante tenho a revelar, por isso não tenho Facebook. Envie o seu e-mail e vamos ser amigos! Boa viagem e desejo-te os mais lindos sonhos!" Debaixo rabiscou o e-mail.
Ela, curiosa, ansiava chegar em casa para digitar algumas palavras para aquele misterioso rapaz. Não tão rapaz assim. Ele tinha cabelos grisalhos e a mesma idade de Richard Gere, 53 anos. Mas estava longe, muito longe do charme do famoso ator. Era professor e se aposentara precocemente por conta de um AVC que o deixara levemente manco. Levemente. Usava discreta bengala de aparentes pequenos nós de madeira; igual àquelas que os exploradores ingleses apareciam nos filmes...
Ela escreveu no seu e-mail: "Oi! meu nome é Leirá, tenho 23 anos, curso Engenharia e adoro ler e curtir música. Você me encontrou num momento difícil. Passo por uma dor quase insuportável; perdi minha cadelinha vitimada pelo câncer e estou em dúvida sobre o meu namorado... que é um tanto sufocante”. E você? Fala- me um pouco de ti.
O e-mail de Odlanor não demorou, com informações básicas, mas sinceras. Ele pedia o celular dela, acrescentando que não era sufocante e aceitaria ser apenas um amigo cordial, ressaltando a diferença de idades. Adorava o bom cinema, na telona e na telinha, e também a Fórmula 1 quando havia brasileiro correndo. Contou que a sua fantasia era idealizar uma "máquina do tempo", tal era o seu temor pela velhice. Acrescentou que amava a Música Popular Brasileira. Especialmente Paulinho da Viola; o incrível Raul Seixas; Caetano; Gil; Bethânea; Elis; o falecido Reginaldo Rossi (observa que "Mesa de Bar" é um hino); Martinho da Vila; o maravilhoso Bezerra da Silva (e seu espirituoso "Sequestraram a minha Sogra"); o genial Milton Nascimento e o inigualável Chico Buarque com a sua trágica “Construção”, “Mulheres de Atenas” e “Cálice”, entre tantas obras-primas...
Mas a exemplo de Leirá, que já havia confidenciado sua admiração pelo Rock, Odlanor demonstra o seu gosto pelo Jazz e, consequentemente, pelo Rock. Não se esquecendo de mencionar Chuck Berry (um dos pais do formidável rítmo); Little Richards; as inesquecíveis Mamma (lésbica assumida "naquele tempo", que elevou o Jazz às alturas); a inigualável Billy Holliday; Ela Fitzgerald; o genial e falecido B. B. King; Rick Valley (o portorriquenho que compôs "La Bamba", outro hino); e, finalmente, ressalta o "genealíssimo branco" Elvis Presley. E solta uma frase de efeito, talvez para impressionar: Elvis vive!
Como Leirá talvez tenha observado, Odlanor era "antigo" pelas suas preferências. Se bem que ele salientava que a música boa não tinha idade. Leirá negou o celular, por enquanto o e-mail bastava - disse. “Realmente, gosto das mesmas coisas que você, especialmente escrever. E observei a sua discreta e elegante bengala. Diferente daquelas chamativas de metal. Um charme! Onde a conseguiu? Foi num filme? Quanto a estar longe da figura do Richard Gere, é muita humildade sua. O cabelo branco e farto como o dele já é uma semelhança... Não para levar-te à Hollywood, é claro (he, he, he)”, sentenciou brincando.
Como Leirá talvez tenha observado, Odlanor era "antigo" pelas suas preferências. Se bem que ele salientava que a música boa não tinha idade. Leirá negou o celular, por enquanto o e-mail bastava - disse. “Realmente, gosto das mesmas coisas que você, especialmente escrever. E observei a sua discreta e elegante bengala. Diferente daquelas chamativas de metal. Um charme! Onde a conseguiu? Foi num filme? Quanto a estar longe da figura do Richard Gere, é muita humildade sua. O cabelo branco e farto como o dele já é uma semelhança... Não para levar-te à Hollywood, é claro (he, he, he)”, sentenciou brincando.
Noite-sim-noite-não o papo virtual continuava sem a mínima insinuação de um reencontro... O papo virou hábito, sempre de madrugada, até o galo cantar. Um dia ela deu uma dica: estaria apreciando a Parada Gay, domingo, no Parque Farroupilha. Ele foi e com alguma dificuldade avistou-a com aquele encantador cabelo desajeitado e longo. Mas não ousou aproximar-se, temendo a rejeição. À noite, pelo e-mail habitual, ela perguntou o que tinha havido? Ele respondeu que simplesmente não a encontrou devido à multidão.
E seguiram trocando e-mails revelando identidades e diferenças que os ligava. Consumiram-se seis meses. Ele viajaria por um longo período e, com medo de uma relutância, fez mil rodeios para, finalmente, pedir que no dia da sua partida ela comparecesse, às 10 horas, no Parque Farroupilha, o maior
de Porto Alegre. Ele estaria lá para se despedir.
de Porto Alegre. Ele estaria lá para se despedir.
Domingo. Dez horas em ponto. Lá estava Leirá, olhando para todos os lados, apreensiva... Odlanor, de trás da coluna de um prédio, hesitava, hesitava... Foi quando pegou um pedaço de papel, rabiscou algumas frases e entregou para um garoto, alcançando-lhe uma gorjeta. O bilhete dizia: “Você está linda, vou recostar- me na janelinha do ônibus e sonhar que você veio me ver para sermos felizes. Sonhar será melhor... Sonhar com os teus longos cabelos sempre informais e teus olhos penetrantes e felizes. Vou fingir, por momentos, que o ônibus é uma Máquina do Tempo..."
Leirá leu e releu o bilhete. Finalmente, guardou-o pensativa. Por coincidência chovia e ameaçava gear. Vestiu o capuz e dirigiu-se para casa. No terminal do ônibus, uma voz murmurou o pedido de horas. Leirá respondeu de maneira inaudível, tomou o seu assento e pensou a célebre frase do Pequeno Príncipe: "cada um é responsável pelo que cativou...”
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DIVINA PROSTITUTA
conto registrado por Ronaldo Soares de Oliveira
Ela entra seminua no quarto mal iluminado. Aparentemente, nenhum sinal de vida. Aos poucos, gemidos de satisfação enchem o ambiente. O homem